segunda-feira, 27 de março de 2017

AS DIVORCIADAS2

Nem todo os casais tem um divórcio amigável ,ou litigioso. Há quem diga que a separação deva ser uma atitude madura e consciente, ou seja, não deve ser tomada no calor de uma discussão. Mas relações conturbadas em geral, tem poucos os momentos de de diálogo pacífico.

Ana Q.
Eu me casei jovem e pela razão que gostava muito do meu namorado, e porque logo fiquei grávida também ,e porque queria muito ter uma família.
As vezes pensamos que o amor basta para solucionar todas as nossas carências, e que o companheiro será o amante amigo para todas as horas, e que ao constituir família seremos imediatamente promovidos a adultos e sensatos. O engano está em não prever as carências do outro.
Como alguém pode amar quando sequer conhece o senso do respeito?
A frustração do meu marido era tão evidente que logo ficou muito clara para mim. Nós casamos em um ano, de namoro e noivado, e o primeiro filho veio e a seguir, depois de 3 anos de casados, o segundo.
Fomos adaptando aqui e ali e então o centro de nossas atenções eram os filhos. Passamos por muitas fases, e nessa época específica ele me ligava todos os dias, isso porque em casa era um mutismo só, para perguntar dos filhos. Se tomaram café, se foram a escola, se estavam em casa, fizeram a lição, etc etc...
Eu fui me tornando uma paisagem sem vontade própria. Eu tentava conversar sobre algo diferente, outros assuntos mas em geral acabava por esbarrar em diferenças de opinião, o que dificultava mais a relação, mas então o assunto morria e voltávamos ao mesmo.

Ele vivia cansado, trabalhava demais, era bom demais, etc, etc...Vivemos por décadas juntos, e só desisti quando percebi que não conseguia mais ajudar. Eu nunca o faria feliz, alias, nem eu era feliz.

Muitas eram as vezes que eu chorava, me sentia uma inútil por tudo. E as palavras ásperas eram trocadas sem a menor cerimonia. Eramos pobres e tínhamos que estar juntos para ajudar os filhos a crescerem, e continuamos. Ele se comportava como vítima o tempo todo, então era eu a culpada de tudo. E sentia-me culpada por ele dizer que eu era. Então fui me recolhendo, me refugiando em pequenas porções de alegria. Um dia o meu marido percebeu que eu andava contente, e sentiu-se ultrajado por tal constatação. Como eu podia ser feliz se nem sequer saia de casa, se ele não estava?
Lembro da primeira vez que pedi-lhe o divórcio. Telefonei e disse simplesmente. Ele ficou estarrecido. De noite ao chegar em casa queria conversar... Agora queria conversar! E conversamos... Me disse que desse-lhe uma oportunidade, que ia mudar. Aquilo me deu uma esperança. Que boba! A mudança durou 15 dias, e o que veio a seguir foram mais acusações.
O divórcio propriamente dito era uma realidade que não queríamos admitir e a iniciativa de oficializar a separação partiu de mim portanto, eu continuo a culpada.
O ser humano é construído paulatinamente por uma história que vem sendo escrita na sua própria carne, desde o nascimento.
Guerreira Xue



terça-feira, 21 de março de 2017

AS DIVORCIADAS1

Nas questões de divórcio sempre há uma forte justificativa, porque do contrário o divórcio não aconteceria. Na maioria das vezes o amor já foi para o buraco faz tempo e o casal ainda tenta manter uma certa estabilidade, porque vai saber... Isso de repente pode melhorar. Ou piorar

O fantasma da separação atormenta pela razão que o casamento acontece para constituir uma família sólida, onde um pode sempre contar com o outro...Na alegria e na tristeza, até que...

Esta, vem a propósito de restaurantes e divórcio.

Izabela M 

Eu sou a protagonista e sinceramente não acho que seja um episódio que me favoreça, mesmo assim, se desse para voltar atrás faria tudo igual.

Deixei o marido pois com ele estava no inferno e entretanto também deixei o emprego, que por sinal gostava muito. Foram uns bons anos como telefonista recepcionista num hotel, mas com o horário das 16h à meia noite andava em contra-mão com a minha filhota de 5 aninhos. Precisava de estar mais tempo com ela e para isso tinha que ter outro horário.

Deixei o hotel, sem saber para onde iria trabalhar. Passados 15 dias surgiu um convite para ir trabalhar para um café/restaurante que era novo na zona. Um espaço enorme, com várias salas e uma grande esplanada.
Que loucura! Eu nunca tinha trabalhado num café e aquele estava sempre a abarrotar de gente, por ser novidade. Mas correu tudo bem, pois o nosso contrato foi apenas enquanto eu não arranjava outro emprego e assim ajudava na época alta, pois era verão.
Bom, fiquei então no balcão do café, com as mesas e esplanada.

Foi em setembro e estava um calor de rachar. Ele apareceu na esplanada, com um amigo que por acaso eu também conhecia. E lá estava ele sentado, com aquele ar fanfarrão, como se estivesse na própria casa sentado no sofá. Era o meu ex-marido e na altura o divórcio ainda decorria em litígio. E o que fazia ali aquela alma?! Escondi-me atrás do balcão do café e toda a gente, incluindo os patrões o queriam ir atender. Toda a gente menos eu!
Isto porque toda a gente nos conhecia.
Levantei-me, pego na bandeja (esta poderia ser-me útil), e lá vou eu. Não sou de fugir!
Caramba! Toda a gente olhava de lado para não perderem a cena. E lá dentro do café, nem precisavam olhar de lado, pois era como se estivessem no camarote.
Bolas este tipo podia poupar-me desta cena desagradável e ainda por cima o tempo parecia que tinha parado. Tudo andava em câmera lenta.
-Boa tarde! E o que vai ser?- pergunto eu.
-Duas imperiais, responde o amigo.
Bem, até aqui correu tudo bem e lá vou eu buscar as ditas imperiais, que são nada mais que cerveja, servida habitualmente em copos altos e finos.
Para o amigo, servi a tal imperial bem fresca. Para o ex, foi num copo igual, mas que estava em cima da máquina do café. Ora o copo, estava bem quente!
O amigo bebeu. O dito até tocou o copo, mas deixou ficar e não bebeu.
Isto não foi nada de mais. Ele tinha merecido ser um daqueles que morre envenenado. Credo e eu estragava a minha vida.

Quando pensamos que acabou, a vida traz outras possibilidades.
Guerreira Xue



domingo, 19 de março de 2017

AS DIVORCIADAS

Ela são amigas que se encontram para o chá da tarde, ou para happy hour. Os assuntos variam bastantes uma vez que a maioria são trabalhadoras, mães, filhas, e irmãs e são de todas as idades imagináveis. O que elas tem em comum? São todas divorciadas.

Bárbara era uma mulher que pouco saia de casa. Ela tinha estado casada por mais 30 anos e agora, estava divorciada. E de repente se viu jogada no mundo novamente como se estivesse acabado de nascer. Ah, de nascer era exagero dizer, mas ela estava bem confusa. Sentia-se "passada" de idade,
Se inserir no mercado de trabalho, buscar uma vida social que não se restrinja somente a família, pois agora era solteira ou divorciada, que seja.
Ser divorciada na verdade, não é ser solteira... É ser divorciada e é para essas corajosas que recomeçam a vida depois de um casamento que dedico esse livro.

Bárbara então teve uma ideia de reunir um grupo de mulheres que eram divorciadas e que tinham as mesmas dificuldades que ela para retomar a vida de um ponto meio indefinido, porque desde então ela só tinha vivido para a casa, o marido e os filhos. Parece estranho? Não, porque com os salários na atual conjuntura não comporta uma despesas com babás ou cuidadora.  Seria mais fácil ficar em casa choramingando, ou em autocomiseração? Não sei dizer porque não escolhi isso.

Ao perceber a história da mulher no contexto social, percebo que a união pode trazer algum benefício. E é por isso que a partir daqui começamos a trajetória da mulher atual.

Guerreira Xue